Paulo Brack e Rosa Maris Rosado
As palavras de Milton Santos ajudam a entender as causas da crise socioambiental atual?
No centenário de nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais brasileiros, nascido em 3 de maio de 1926, referência mundial da geografia, revisitar sua obra “Por uma Outra Globalização" (2000) é mais do que um exercício de memória: é um convite urgente à reflexão sobre o presente. Seu livro denunciava as desigualdades produzidas pela globalização hegemônica e apontava a possibilidade de um mundo construído a partir da solidariedade, da diversidade dos territórios e do protagonismo dos povos.
Mais de duas décadas depois, numa coleção de cerca de meia centena de livros publicados e autoria de mais de 300 artigos científicos, suas análises permanecem surpreendentemente atuais. Entretanto, o contexto do momento é bem pior do que aquele da virada do milênio.
Agrava-se a concentração de riqueza e de desigualdades sociais mundiais, com o ressurgimento de uma direita fascista internacional, seguido de um quadro de emergência climática não previsto nas décadas anteriores. No tema climático, é alarmante o fato de que a atmosfera da Terra teve os últimos 10 anos mais quentes da história desde 2015[1], e que em 2026 teremos outro ano com temperaturas muito acima da média e um fenômeno El Niño ainda mais forte. Além disso, nos estudos referentes à Ecosfera, já há sete entre os nove principais limites de alterações planetárias superados [2], e as perspectivas não são boas.
As economias de livre mercado, uma das bases do capitalismo, estão em fase de crise profunda nas relações de cooperação internacional, pela forma de protecionismos e taxações dos EUA, por exemplo, além de sua violenta intervenção sobre países produtores de petróleo ou de viés não liberal. E a pergunta central continua ecoando: que globalização queremos superar e que rumos comuns necessitamos construir, dentro de outro paradigma longe do atual neoliberal-capitalista ecocida?
Talvez as respostas não sejam dadas com facilidade, pois, diante da crise climática e socioambiental, vivemos entre o negacionismo e o imaginário de uma transição energética profundamente insuficiente ou de propaganda enganosa. Ou seja, Milton Santos não havia vivido este novo contexto de problemas agudos atuais, no que se chama de policrise, porém faz muita falta, pois há ausência de reflexões que ele fazia e de projetos em contraponto a uma tendência em se naturalizar o contexto de barbárie, comandado pelos EUA, em um mundo dominado por corporações, cada vez maiores, e por serviços públicos predominantemente privatizados, em uma economia mundial que navega no caminho do colapso climático-socioambiental.
O mundo, de economia hegemônica capitalista, segue gastando exponencialmente energia, com percentual de 80% de provinda de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural), mesmo após 10 anos do Acordo Climático de Paris (2015), abstraindo a necessidade de redução de consumo. O cenário socioambiental permanece em profunda crise, com investimentos concentradores e que impactam negativamente o meio ambiente.
Em sua obra “Por uma Outra Globalização" (p. 33 e 34), M. Santos sentencia: “Um pequeno número de grandes empresas que se instala acarreta para a sociedade como um todo um pesado processo de desequilíbrio. Todavia, mediante o discurso oficial, tais empresas são apresentadas como salvadoras dos lugares e são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e modernidade. Daí a crença de sua indispensabilidade, fator da presente guerra entre lugares e, em muitos casos, de sua atitude de chantagem frente ao poder público, ameaçando ir embora quando não atendidas em seus reclamos. Assim, o poder público passa a ser subordinado, compelido, arrastado”.
Ele vai mais adiante: “a globalização atual é perversa, fundada na tirania da informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos espíritos e na violência estrutural, acarretando o desfalecimento da política feita pelo Estado e a imposição de uma política comandada pelas empresas.”
No Rio Grande do Sul e no Brasil, a celulose e demais commodities tornam Um Outro Mundo Impossível?
Na situação brasileira, apesar do atual governo federal obter diminuição do desmatamento da Amazônia e uma recuperação parcial da estrutura do estado, após a destruição decorrente do governo anterior, não houve interrupção do processo neoliberal que destrói legislação ambiental, privatiza a água e grande parte da energia, mantendo o “boom” das commodities e de megaempreendimentos, como Data Centers ou megaempresas de celulose, com imensos prejuízos sobre os territórios da sociobiodiversidade.
No Rio Grande do Sul, o colapso climático-ambiental, em especial das enchentes de maio de 2024, trouxe um quadro traumático, mas que vai sendo apagado e talvez tenha deixado poucos ensinamentos. O que mudou nas políticas públicas e na perspectiva de “Um Outro Mundo Possível”, se este sonho ainda existe, mas se as causas seguem praticamente as mesmas?
Nosso estado, junto com outras dez unidades da federação, tem como principal produto de exportação a soja, distribuída em monoculturas que ocupam 6,8 milhões de hectares em seu território. Além da commodity soja, agora ressurge a propaganda de gigantescos investimentos, em parte públicos, no que seria o maior polo industrial de celulose (25 bilhões de reais?), com uma nova planta industrial da empresa chilena CMPC, prevista agora para Barra do Ribeiro(RS), em dimensão ainda maior do que aquela da megaindústria de Guaíba.
Nesta aventura da exportação da celulose para levar em ⅓ para a China, a 20 mil km, para produzir papel e outros produtos lá, estes projetos contam com potencial amparo dos governos. A empresa promete 2,3 mil empregos, para a produção de 2,5 milhões de toneladas de celulose para exportação, entupindo o Pampa de eucaliptos, carregando alta carga de efluentes em quantidade (242 milhões de litros/dia), volume equivalente a esgotos de uma população de 1,4 milhão de pessoas e colocando em risco, oficialmente, 7.078 pescadores do Guaíba.
Cabe destacar que a empresa CMPC pretende usar água da melhor qualidade no Guaíba (288 milhões de litros/dia, em Classe I) e jogar 242 milhões de dejetos/dia com padrão inferior (Classe II), a 6 km de duas adutoras do DMAE, em Belém Novo. A aventura dos quase 5 milhões de toneladas de celulose/ano e cerca de 398 milhões de litros de efluentes/ dia é inédita mundialmente em um corpo d'água interno e este imenso risco de poluição concentrada em um só corpo hídrico não está sendo considerada.
Também cabe lembrar, no tocante à poluição do Guaíba, que pesquisas do Laboratório de Ictiologia da UFRGS, realizadas por mais de 15 anos, constataram a presença de peixes com malformações, decorrentes de poluentes no corpo d'água Guaíba, nas proximidades do Gasômetro, em Porto Alegre, e na foz do arroio Celupa, no município de Guaíba (onde está a sede atual da CMPC), entre outros pontos.
Nesse cenário de globalização do grande capital e do imaginário do “desenvolvimento” e competitividade, que Milton Santos já havia criticado, retorna o que ele denominava como “tirania do grande capital”, que ameaça os modos de vida coletivos espalhados pelos territórios indígenas, das comunidades tradicionais, das populações vulneráveis da cidade e do campo, que vivem outra temporalidade que não a do capital - o tempo-lento, o tempo vivido …
Eduardo Galeano também criticou os megaprojetos de celulose, denominando-os como “Salva-Vidas de Chumbo”
Alguns anos depois de Milton Santos, o escritor Eduardo Galeano, autor das Veias Abertas da América Latina, reforça a denúncia a esses capitais depredadores referindo-se, em um artigo escrito em 2006, sob o título “Salva-Vidas de Chumbo” [3].
Esta triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata, e continuou com o açúcar, o tabaco, o guano, e salitre, o cobre, o estanho, a borracha, o cacau, a banana, o café, o petróleo… O que esses esplendores nos deixaram? Nos deixaram sem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas apodrecidas, longas caravanas de infelizes condenados à morte antecipada, palácios vazios onde perambulam fantasmas…Agora, chegou a vez da soja transgênica e da celulose. E outra vez repete-se a história das glórias fugazes, que ao som de seus clarins nos anunciam longas tristezas.”
“A celulose, é preciso reconhecer, transformou-se em algo assim [no Uruguai e países vizinhos] como uma causa patriótica, e a defesa da natureza não desperta entusiasmo” [...] “Celebra-se a desgraça como se fosse boa notícia. Mais vale morrer de contaminação do que morrer de fome: muitos desempregados acreditam que não existe outro remédio além de escolher entre duas calamidades, e os mercadores de ilusões desembarcam oferecendo milhares e milhares de empregos. Acontece que uma coisa é a publicidade, e outra é a realidade.”
A questão decisiva para o Rio Grande do Sul não é quantos bilhões serão investidos, quantas toneladas serão exportadas ou quantos empregos temporários serão prometidos, mas quais as consequências para o legado desta decisão para a nossa vida e das futuras gerações. Em um mundo marcado pela emergência climática, pela extinção de espécies, destruição dos biomas e pelos ataques a sociobiodiversidade, insistir em um modelo baseado na exportação de commodities, na concentração de riqueza e na socialização dos impactos ambientais significa aprofundar as mesmas contradições denunciadas por Milton Santos e Eduardo Galeano.
O des-envolvimento deve ser revisto urgentemente, diante do caos climático e ambiental que vivenciamos. Não se pode mais como cair no conto dos “mercadores de ilusões”, não temos mais tempo para essas falácias de quem considera a questão ambiental como um entrave. O tempo deve ser usado para forjar ações coletivas para ampliarmos nossa capacidade de preservar os bens comuns, para garantir justiça socioambiental, respeitando os limites ecológicos dos territórios e ouvindo os povos e comunidades que neles vivem.
A escolha que se apresenta hoje no RS não é apenas sobre uma nova fábrica de celulose ou sobre um empreendimento específico; é sobre qual futuro teremos ou, sendo mais realistas, se teremos futuro. Se continuarmos nos relacionando com o ambiente como uma fonte inesgotável de recursos, como meras plataformas de exportação, corremos o risco de transformar em realidade aquilo que ambos os autores alertaram: seguiremos rumo a um progresso que enriquece poucos, detrimento da vida de muitos e compromete nossa água e as condições de vida das próximas gerações.
[2] https://www.stockholmresilience.org/research/planetary-boundaries.html
[3] https://aspta.org.br/2015/04/13/salva-vidas-de-chumbo/
