segunda-feira, 22 de julho de 2024

As enchentes e a devastação na Bacia do Guaíba, em maio de 2024, vão ser esquecidas e naturalizadas?

Paulo Brack (22 de julho de 2024)

No Brasil, o tema ambiental praticamente só vem às manchetes a partir das calamidades, e depois de um tempo tudo se naturaliza ou se esquece. As tragédias do rompimento das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), em Minas Gerais, que trouxeram juntas quase 300 perdas de vidas humanas e a destruição do rio Doce e outros rios da região, são resultantes do descaso privado e público, infelizmente até hoje sem a punição dos responsáveis.

No Rio Grande do Sul, fica a pergunta: haverá esquecimento e naturalização progressiva quanto à dimensão, as causas e as responsabilidades pela inação prévia à calamidade climática-ambiental sem precedentes que viveu o Estado, no mês de maio de 2024, na região da bacia do Guaíba e Laguna dos Patos?

É fato que as chuvas torrenciais tiveram valores de 400 a 500% acima dos valores médios para o mês de maio, atingindo as bacias dos rios Pardo, Jacuí, Taquari, Caí, Sinos, Gravataí, além do rio Guaíba e a Lagoa dos Patos. Porém, as mudanças climáticas e seus efeitos socioambientais têm suas causas ligadas à economia dos negócios de sempre (business as usual). Realmente, ocorreu um fenômeno extraordinário, já que a pluviosidade para o mês de maio de 2024, no caso de Porto Alegre - cuja média era de 112,8 mm - alcançou 539,9 mm, sendo a maior da história para todo o mês. A outra maior enchente de maio de 1941, na Capital, teve volume de 405,5 mm.

Além das enchentes, houve violenta dinâmica na bacia dos rios, com desmoronamentos também sem precedentes, nas encostas da região da serra. Foram pelo menos 182 pessoas que perderam suas vidas, permanecendo mais de duas dezenas desaparecidas, 806 feridas, cerca de 600 mil desalojadas. Foram mais de 400 municípios atingidos, com mais de 2 milhões de pessoas afetadas (Figura 1). Famílias sofreram a perda de seus parentes e da destruição total ou parcial de dezenas de milhares de residências. Algumas cidades quase desapareceram totalmente ou parcialmente, pela violência das águas ou mesmo em decorrência das enchentes extraordinárias, como Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Sobradinho, Encantado, Muçum, Lajeado, Estrela, Eldorado do Sul, Canoas, entre outras dezenas, principalmente na bacia do Guaíba (Figura 2).

Os altos volumes pluviométricos incidiram também em uma superfície de milhões de hectares de solos cada vez mais desestruturados pela agricultura que avança nos campos de altitude, a partir da retirada de vegetação nativa substituída por usos antrópicos inadequados (agricultura industrial com agroquímicos) nas cabeceiras e nas áreas de inundação das margens dos cursos de água. Impermeabilização do solo, escoamento superficial das águas da chuva, que não infiltaram no solo pela compactação dos tratores nas lavouras, erosão decorrente da agricultura, antes não existente na região das cabeceiras, e consequente  assoreamento dos arroios e rios, foram ingredientes que contribuíram para a rápida subida da água, em uma dimensão muito superior a outro evento, ocorrido em setembro de 2023, que devastou algumas cidades concentradas na bacia do rio Taquari-Antas.

Figura 1. Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari. Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini. Publicada no Sul21

Figura 2. Bacia do rio Guaíba (IBGE).

O recente evento climático e ambiental incorpora múltiplos fatores, além dos aspectos anteriores, os problemas sociais, políticos associados ao despreparo governamental e de políticas públicas fragilizadas pelo neoliberalismo e seu “Estado Mínimo”. No cenário atual, não se prevê planejamentos para habitações, construções e infraestrutura urbana decente e vida digna para a maioria das populações afetadas nas cidades, no campo e no meio ambiente. Esta situação dramática ainda levará muito tempo para ser dimensionada e o trauma às populações atingidas provavelmente durará meses ou muitos anos para ser, minimamente, superado, caso isso seja possível.

Alguns elementos relacionados ao cenário dramático da questão climática

No que se refere ao tema da emergência climática que afeta o Planeta, consolida-se como um dos maiores problemas dos tempos atuais e futuros, cada vez mais distante de soluções. No ano de 2023, foram registradas as temperaturas mais elevadas na atmosfera, associadas aos gases de efeito estufa (GEE), que não param de crescer. O gás carbônico (CO2) já atinge cerca de 420 ppm (partes por milhão) na atmosfera, em níveis não observados pelo menos nos últimos 800 mil anos (Figura 3). Segundo informe da Organização Meteorológica Mundial (OMM, 2023), os últimos oito anos foram os mais quentes já registrados. Recente trabalho sobre o clima mundial, realizado por uma equipe coordenada pelo cientista estadunidense William J. Ripple (2023), demonstra mudanças rápidas não só no clima da atmosfera, mas na elevação recorde na temperatura dos oceanos, além do rápido degelo de calotas polares e de geleiras das montanhas.


Figura 3. Crescimento de CO2 nos últimos 800 mil anos. Fonte: Global Monitoring Laboratory.
https://gml.noaa.gov/ccgg/trends/history.html

Quanto ao clima da América do Sul nesta região, o fenômeno El Niño, mesmo que natural, é agravado pelas mudanças climáticas de origem antrópica ou econômica, atuando no aumento das chuvas no RS e parte do Sul do Brasil. O El Niño corresponde, em parte, ao aquecimento do Oceano Pacífico, trazendo excesso de chuvas e umidade para o Rio Grande do Sul. O Oceano Atlântico também está mais quente, trazendo muitas chuvas para o norte da Amazônia e muita umidade que, em parte, é escoada para o sul e o sudoeste do Brasil. Esta grande quantidade de umidade trazida para o sul do Brasil concentrou chuvas na metade norte do Rio Grande do Sul, ou seja, acima do paralelo 30º de latitude sul. As frentes frias de origem austral, comuns nesta época do ano, em geral avançariam para o norte e levariam estas nuvens de chuva para outras regiões. Entretanto, parte das chuvas associadas à frente fria sofreu um bloqueio atmosférico, ou um centro de alta pressão, com muito calor e baixa umidade relativa do ar, na parte do centro do Brasil. A magnitude das chuvas represadas no RS, concentradas em alguns municípios, com valores pluviométricos em um mês, entre 500 mm e 800 mm, gerou devastação em vales, várzeas, planícies de inundação de rios e em encostas mais íngremes.

A economia segue igual, apesar do aumento dos eventos climáticos extremos

A instabilidade climática é uma realidade cada vez mais presente. Há 2 anos, vivíamos no RS uma seca histórica, não registrada nos últimos 70 anos. O alerta para secas e enxurradas fortíssimas já estava sendo anunciado, principalmente em relatório histórico de 2007 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês). O descontrole e o agravamento do cenário climático são situações de difícil ou quase impossível estancamento ou solução em curto ou médio prazos. Existe um conjunto grande de processos que mantém a inércia do sistema climático que causa a liberação crescente de gigantesca quantidade de GEE.

As causas atuais antropogênicas estão associadas a um modelo econômico energívoro. Isso significa que o sistema de produção capitalista provoca um alto consumo energético, como uma máquina devoradora e insaciável que faz girar uma economia que não tolera limites, o que por si só é insustentável, já que incorpora exploração de recursos sem limites e desperdícios como forma de gerar lucros a oligopólios econômicos que não querem perder tempo em pensar no futuro. Trata-se de um problema de difícil solução, já que cerca de 80% da energia utilizada no mundo provêm de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural)(Figura 4). Os fatores climáticos antropogênicos configuram não só o que vem sendo chamado de Antropoceno, mas fortalecem um cenário de aprofundamento do tema do metabolismo socioeconômico, caracterizado por alguns autores como Capitaloceno.

Figura 4. Matriz energética mundial em 2021. Fonte International Energy Agency (IEA), e ilustração da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Ou seja, o modelo do crescimento econômico capitalista é, por si só, indomável e não admite redução de consumo de energia, ainda mais tendo em vista a recente privatização das fontes de energia de abastecimento à população (fontes hídricas, térmicas, eólicas, etc.). O setor privado das concessionárias não admite a redução ou mesmo um uso racional que gere estabilização dos níveis de consumo, e sempre vai cobrar do governo que as políticas econômicas não afetem seus negócios em concessões de 30 anos ou mais. Assim, não é razoável e justo imputar a responsabilidade aos seres humanos (=“antropo”), de forma genérica, no que se considera Antropoceno, já que existem culturas humanas diversas (modos de vida não apegados à acumulação capitalista), em especial aos povos originários, e nem todas contribuem ao problema da liberação de GEE, à degradação e à poluição do meio ambiente.

Se os povos indígenas e as comunidades tradicionais não têm responsabilidade neste processo associado a um modelo de economia do esgotamento, é profundamente equivocado imputar a responsabilidade ao “homem”, de forma genérica, como se o ser humano fosse uma entidade uniforme e monolítica, além de naturalmente poluidor. Na realidade, segundo a organização Oxfam, 1% da população, dos chamados países desenvolvidos, emite a mesma quantidade de poluição que 5 bilhões de pessoas, e as emissões de CO2 de 1% mais rico da população mundial alcançou em 2019 cerca de 16% das emissões totais do planeta.

Segundo o Professor Dr. Luca Ferrari, da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), para se buscar uma solução verdadeira, “o decrescimento é inevitável”, ou seja, não se pode seguir crescendo porque já não há tanta energia disponível e porque os danos que o sistema econômico está fazendo à Ecosfera são cada vez maiores. Entretanto, segundo ele, “todo o sistema [econômico] que temos está adicto ao crescimento”.

Em meio aos conflitos bélicos, que fazem girar parte de uma economia dissociada da busca da paz e do equilíbrio ecológico, em nível mundial ganha mais ênfase a indústria das armas, principalmente pelas grandes potências, com gastos de um trilhão de dólares anuais. Desta forma, vários acordos internacionais do clima vêm fracassando, trazendo à tona o real desinteresse no enfrentamento do problema, como bem assinala o professor Luiz Marques, da UNICAMP, autor do livro Capitalismo e Colapso Ambiental. Assim, não se prevê, na prática, que os grandes atores que comandam economia atual, mesmo nos diferentes acordos das conferências entre as partes (COP) do clima, possam promover muitas mudanças no contexto de agravamento das tragédias climáticas. Neste sentido, tudo leva a crer que estamos diante de um futuro incerto e ameaçador.

E já que a diminuição do crescimento do consumo de energia, necessária para reduzir a liberação de GEE, não faz parte das pautas da maior parte dos governos e do mercado global, ganham espaço privilegiado as falsas soluções de mercado (hidrogênio verde, carros elétricos, monoculturas arbóreas, entre outras), correspondendo, muito mais, a jogadas especulativas e que não enfrentam as verdadeiras causas do problema. O falso enfrentamento do problema climático cria imaginários de forma fantasiosa, para diminuir as consequências, sem atingir as causas relacionadas ao aumento contínuo do consumo, mesmo que supérfluo, com a continuidade atual da elevada liberação dos GEE. Basta ver a naturalização do esbanjamento do consumo desnecessário de energia, no avanço recente da instalação indiscriminada de painéis luminosos, de propagandas de consumo dispensável e poluição visual, em Porto Alegre, a recente capital da calamidade climática mundial.

Figuras 5 e 6. Se espalham centenas de totens luminosos, refletindo o esbanjamento de energia elétrica e o consumo, que promovem a crescente liberação de Gases de Efeito Estufa, justamente em Porto Alegre, a capital da calamidade climática do mundo, em maio de 2024.

As políticas públicas de proteção socioambiental seguem na contramão da calamidade

Estes eventos climáticos extremos, em intensidade e frequência, estão sendo alertados por cientistas, de maneira incontestável, há mais de duas décadas. A confirmação desses fenômenos estamos sentindo na pele. Mas, infelizmente, outras enchentes e enxurradas que ocorreram em junho, setembro e novembro de 2023, com as principais consequências no vale do rio Taquari, no início de setembro de 2023, não parece ter surtido efeito da prevenção necessária para novos e atuais cenários de calamidades. No final de agosto de 2023, institutos meteorológicos renomados alertavam alguns dias antes dos primeiros dias de setembro o que ocorreria no que toca às chuvas históricas nunca vistas, com valores de pluviosidade entre 300 e 500 mm em poucos dias. O governo do Estado do Rio Grande do Sul não tomou providências naquele momento, semelhante ao que fez agora, entre o final de abril e início de junho deste ano.

Vários elementos associados a uma maior vulnerabilidade socioambiental teriam atuado de forma sinérgica: despreparo de parte de governos municipais e governo estadual para preparar a população para ações emergenciais, a partir dos alertas dos institutos meteorológicos; negacionismo climático; ausência de planejamento da localização de cidades e de habitações humanas rurais; despreparo e improviso dos administradores públicos em manter a defesa das pessoas e da infraestrutura urbana frente às enchentes, situação que ficou evidente em Porto Alegre, pelas falhas múltiplas no sistema de defesa da cidade (diques, comportas e bombas), concebido nas décadas de 1960 e 1970. O desmonte ou flexibilização do Código do Meio Ambiente no Rio Grande do Sul, em mais de 400 itens refletidos na Lei Estadual n. 15434/2020, trouxe maior facilitação da retirada de vegetação protetiva e ao mau uso e ocupação do solo, agravando ainda mais o problema das cheias, como apontaram os professores do Instituto de Biociências da UFRGS.

Como resposta, os políticos gaúchos dos partidos das bases do governo do Estado e da prefeitura de Porto Alegre seguem negacionistas climáticos, trabalhando no prosseguimento do enfraquecimento dos órgãos públicos aos quais incumbe maior papel no preparo do enfrentamento de tais situações.

Em vez de se fortalecer os órgãos de meio ambiente e da infraestrutura pública de proteção de Estado, nas áreas de meio ambiente, aos serviços públicos e às habitações mais resilientes e/ou distantes das áreas de risco, os governos Estadual e da capital do Rio Grande do Sul privilegiam a contratação de consultorias privadas, apostando ainda mais na flexibilização e no enfraquecimento deliberado da legislação e do controle público na área ambiental. Alguns setores econômicos aproveitam a situação da calamidade para congelar multas ambientais e criar um estado de exceção que favoreça ainda mais licenças aos negócios ecologicamente insustentáveis e de maior risco. Exemplo disso foram as licenças expedidas de forma urgente pela FEPAM para a permissão de localização de grandes depósitos de milhares de toneladas de entulhos e resíduos resultantes da destruição de casas, automóveis e equipamentos urbanos, provocada pelas enchentes, sem regras claras de controle, monitoramento ambiental, eventual reaproveitamento parcial e desativação.

Os comitês de bacias hidrográficas poderiam ter sido fortalecidos, já que surgiram no Rio Grande do Sul para colaborar nas políticas públicas, onde a sociedade deveria ter seu espaço de intervenção garantido. As populações poderiam ter sido alertadas e mais preparadas para a ocorrência destes eventos. Em outubro de 2023, no Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema), o InGá (por meio do presente autor deste artigo de opinião) e as demais entidades ambientalistas se pronunciaram pela criação de uma força-tarefa no Estado para encarar o problema das cheias, principalmente no que se refere às Áreas de Preservação Permanente na bacia do Rio Taquari-Antas, que estavam sendo alvo de flexibilização, inclusive nos municípios. Nada disso ocorreu até o novo evento mais devastador de maio de 2024. E, como resultado posterior, o governo cria, em junho deste ano, um Conselho de Reconstrução RS que, entre mais de 170 representantes de diversos setores, esqueceu de convidar qualquer entidade ambientalista

A bacia do Guaíba, reunindo caracteres de rio e lago, é incontestavelmente um curso de água, o que requer legislação ambiental de proteção de sua APP de 500m

A grande região da bacia do Guaíba é formada pela junção dos rios Jacuí, Sinos, Caí e Gravataí, recebendo o deságue de outras sub-bacias que se estendem pelo centro-norte e nordeste do Rio Grande do Sul, em uma área de 84.763 km², ou seja, cerca de 30% da superfície do estado.

Lembramos que o Guaíba segue sendo classificado como rio, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ademais, seu caráter fluvial é reforçado por trabalhos de pesquisa de campo recentes (Nicolodi et al. 2010; Scottá et al. 2019; Andrade et al. 2017), em especial em seu canal central norte-sul, desde a desembocadura de seus tributários até seu limite Sul com a Lagoa (ou Laguna) dos Patos. No Guaíba, prevalecem os escoamentos que acompanham os gradientes do terreno submerso, numa direção noroeste para sudeste, com velocidades médias registradas entre 20 a 30 cm por segundo, durante a maior parte do ano. A vazão é tão expressiva, em volumes e velocidades, que o tempo de residência das suas águas é de cerca de 10 dias, em média, entre a Usina do Gasômetro e a Ponta de Itapuã.

Este olhar de atualizações científicas amplia a necessidade também de se adotar o princípio da precaução para a proteção das margens do Guaíba, em especial de suas Áreas de Preservação Permanente (APP), previstas no Artigo 4º da Lei Federal n. 12.651/2012. A condição incontestável de curso de água determina a obrigatoriedade da manutenção dos 500 metros de faixa de APP em todas as suas margens, excluindo-se as áreas urbanas consolidadas, ou seja, as áreas urbanizadas historicamente. Assim, adotada a compreensão de que o Guaíba é um curso de água, demonstrado por pesquisas mais atuais, teríamos maior proteção da orla contra a erosão, deixando crescer as matas ciliares e demais tipos de vegetação ripária que fornecem o chamado efeito esponja e maior resiliência às enchentes amplificadas pelas ondas. Em Porto Alegre, o movimento da correnteza e das ondas devastaram parte da orla do Guaíba, nos bairros Belém Novo, Lami, Ipanema, entre outros, destruindo também trechos com equipamentos urbanos recentes, entre o Parque Marinha do Brasil e o Gasômetro, concedidos ou previstos para concessões e inclusão de estruturas urbanas.

No que se refere ao governo do Estado, ao contrário das providências necessárias, as políticas estaduais na área ambiental seguem o rumo imediatista dos setores econômicos e políticos negacionistas, não só ignorando as medidas necessárias, em curto, médio e longo prazos, o que se denota na aposta na diminuição da proteção das APPs, como ocorreu recentemente com a Lei Estadual n.16.111/2024, que permite intervir na beira dos cursos de água e banhados, com o artificio de utilidade pública e interesse social. Esta lei, de origem das bancadas obscurantistas alinhadas ao governo do estado, apoiada pelas federações que promovem a economia depredadora, permite obras e barragens para irrigação de monoculturas que, em sua maioria, servem para a exportação de soja e outros grãos, e não para produção de alimentos para a população, já que o Brasil está importando feijão e arroz, em decorrência da diminuição de suas áreas de plantio nos últimos cinquenta anos.

A expansão de atividades agrícolas nos campos de altitude, nas cabeceiras da região da bacia hidrográfica do Guaíba

A lama, que se mostrou presente na água dos rios tributários e no próprio Guaíba, corresponde, em grande parte, à erosão em decorrência do mau uso da terra. As espessas camadas de barro e lama carreadas pelos rios em áreas de várzeas atingiram construções, principalmente ao longo das margens dos cursos de água, indicando que o problema não é só excesso de água. A ausência de planejamento urbano é uma característica típica do Brasil e o imediatismo quanto à má ocupação do solo é outra marca das administrações neoliberais. A flexibilização da legislação permite destruir ainda mais a vegetação nativa, em especial as florestas de beira de rios, impermeabilizando o solo com máquinas pesadas e permitindo a erosão do agronegócio, lavrando solos virgens de campos de altitude, principalmente pelos excepcionais plantios de soja no Planalto das Araucárias, destruindo a vegetação das cabeceiras dos rios e demais cursos de água da bacia.

No caso da bacia do rio Taquari-Antas, o assoreamento e as demais condições favoráveis ao escoamento (e menos infiltração de água no solo) trouxeram uma rápida e histórica elevação das águas, em níveis não registrados pelo menos nos últimos 150 anos, alcançando a cota de 32 m, incrementando uma dinâmica, mais uma vez, devastadora, ainda maior do que aquela do início de setembro de 2023, com enorme caudal de água e lama, escoando pelo Guaíba e depois na Laguna dos Patos.

 

Figura 7. A vegetação nativa dos Campos de Cima da Serra está desaparecendo, e com ela a pecuária (vocação destes campos) dá lugar a monoculturas de soja e grandes plantios de hortaliças.


Figura 8. A recente e rápida substituição da vegetação nativa milenar dos campos do Planalto das Araucárias por lavouras convencionais quimicodependentes compromete os mananciais hídricos da bacia do Guaiba e provoca erosão e assoreamento de rios.

Figura 9. Máquina agrícola pulverizadora de agrotóxicos, além de compactar o solo e torná-lo mais impermeável, contamina com biocidas agrícolas sintéticos. 

Flexibilizar ainda mais a legislação dos Campos de Altitude e as Áreas de Preservação Permanente?

Como agravante, as bancadas ruralistas do atraso querem destruir a Lei da Mata Atlântica que protege os campos de Altitude, acima de 700m, com vocação para pastagem nativa, para permitir monoculturas de soja (Figuras 7 e 8), batatinha, hortaliças, eucalipto, pinus que atingem justamente as cabeceiras da bacia do rio Guaíba.

Outro agravante é a proposta de lei que está para ser aprovada no Congresso, por iniciativa da bancada ruralista, que retira os Campos de Altitude (portanto nas cabeceiras dos rios, em especial justamente na bacia do rio Taquari-Antas) da proteção da Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428/2006). Ou seja, a proposta, se passar - e tudo indica que sim - vai provocar ainda mais destruição do solo, mais erosão e assoreamento, via maior escoamento de água, ao contrário da infiltração da água da chuva no solo coberto por vegetação nativa.

Em resumo, as bancadas da economia imediatista e ecocida, com o lobby fortíssimo de setores econômicos do círculo vicioso das monoculturas de exportação, com apoio dos principais meios de anticomunicação e desinformação, estão aproveitando o momento da calamidade no RS, para passar as boiadas. Não por acaso, nesta quarta-feira, 8 de maio, foi aprovada uma lei na Câmara de Deputados que promove, de forma anticonstitucional, a retirada da silvicultura (monoculturas arbóreas de árvores de eucalipto e outras árvores exóticas) da obrigatoriedade de licenciamento ambiental. Na pauta do Congresso, estão outras propostas de afrouxamento da legislação ambiental.

As Barragens

Para aumentar o tema complexo (climático-ambiental) das enchentes, o assunto das barragens de hidrelétricas no rio Taquari-Antas deve ser tratado de forma mais aprofundada, já que houve risco real, admitido pelo governo do Estado, de rompimento das mesmas, o que poderia trazer uma tragédia ainda maior. As empresas. A Hidrelétrica 14 de Julho sofreu rompimento parcial e do risco de outros colapsos de barragens e potenciais tragédias. Os estudos independentes, do ponto de vista técnico-científico, devem ser realizados inclusive evitando-se fatos como o que ocorreu com o rompimento parcial da barragem. É importante lembrar também que as barragens criam desníveis tanto na linha do barramento como em tuneis, gerando quedas de fluxo acelerado de água que potencializam turbulência e aumento da velocidade da água a jusante de cada uma delas. Como consequência, as matas ciliares abaixo das represas de hidrelétricas do rio Taquari-Antas quase desaparecem quanto mais próximas da linha de barramento. E além do problema de destruir as matas ciliares, ocorre a destruição da biodiversidade das margens dos rios, da piracema, da pesca e das moradias e atividades dos ribeirinhos, entre outros problemas ignorados.

https://www.youtube.com/watch?v=5fuL1553NcY&t=18s&ab_channel=UOL




quarta-feira, 24 de abril de 2024

A ESTRUTURA MENTAL DO INIMIGO (Antonio Turiel, 10-04-2024)

 

https://crashoil.blogspot.com/2024/04/el-marco-mental-del-enemigo.html


"Queridos leitores:

"Então, quais são as soluções?"

Essa é a pergunta frequente que ouço ao final de qualquer evento do qual participo. Uma questão muito lógica no quadro mental em que nos movemos e que, portanto, se repete com frequência.

Em qualquer um desses atos, ainda gastamos um tempo incrível diagnosticando a situação, e sempre sobra pouco tempo para conversar sobre o que fazer. Mas não há remédio: temos de repetir e ir mais fundo na explicação do que está a acontecer, por causa do esmagador silêncio mediático [ grande mídia] sobre a verdadeira dimensão da crise biofísica da nossa civilização (a policrise como por vezes se diz, a resultado da repetida e obstinada colisão contra os limites biofísicos do planeta).

Porque as pessoas não sabem o que realmente está acontecendo. Veem que as coisas não funcionam, que não vão bem, mas não entendem. Além disso: há tanta quantidade de lixo comunicativo, de lixo (des)informativo, que é tão difícil avançar na discussão quanto se movimentar no meio do sótão da vovó: a cada passo, alguém traz à tona uma “notícia”. " que leram ou ouviram (às vezes anos atrás, mas nunca foram negados), conchas vazias que sempre envelhecem muito mal, mas que continuam a ocupar espaço na discussão: sim grafeno, sim fusão, sim tório, sim combustíveis sintéticos, sim hidrogénio verde, metanol, baterias de sódio, fosfato de lítio, geotérmica, energia das ondas... E no meio dessa espessa folhagem de meias verdades e mentiras clamorosas, confio-me ao nosso patrono, San Brandolini, e estou pacientemente mas abrindo caminho dolorosamente com o facão dos dados e da análise técnica. E, assim, quando finalmente e sem tempo alcançamos a clareza de compreensão da situação, é aí que chega a questão.

"Então, quais são as soluções?"

Esta frase é, na realidade, outra falácia, mas de tipo diferente das anteriores. E embora os anteriores possam ser refutados do ponto de vista técnico, com argumentos científicos e dados contrastados, neste caso o problema é conceitual. É uma questão mal formulada porque parte de uma estrutura conceitual errônea.

A estrutura conceitual do inimigo.

Porque, após uma longa discussão técnica, sobre questões técnicas, contrastando dados do mundo real, surge a pergunta “e depois?” como se a resposta devesse ser dada no mesmo nível conceitual, ou seja, no nível técnico.

Mas isso é uma falácia.

Todo o trabalho anterior, todo o trabalho que fiz nestes 14 anos de divulgação, resume-se em que não existe uma forma técnica de manter o capitalismo. Não é fisicamente possível continuar com o mesmo sistema socioeconômico. Haverá falta de recursos, haverá falta de energia, e os problemas ambientais e as alterações climáticas em particular já estão a causar catástrofes em cascata que afetam a execução “normal” do sistema econômico. Só podemos esperar fracassos e mais fracassos, cada vez mais concatenados e, no final, em cascata, até que na prática o capitalismo, tal como o entendemos hoje, tenha desaparecido de uma forma ou de outra, seja porque evoluiu para um sistema democrático ou - mais provavelmente - autoritário que nos mantém dentro dos limites biofísicos do planeta, seja porque a civilização entra em colapso (e no caso extremo a espécie humana se extingue).

"Então, quais são as soluções?"

Esta questão contém implicitamente a ideia de que sejam dadas soluções técnicas para manter o sistema tal como está. Ao fazer esta pergunta desta forma, assume-se que o capitalismo deve ser mantido e só é aceitável ouvir falar de desenvolvimentos científicos e tecnológicos.

Estamos presos neste ponto há literalmente décadas. Há 50 anos sabemos que não existem soluções técnico-científicas que permitam a manutenção do capitalismo, mas há 50 anos colocamos todo o peso da discussão nas soluções técnico-científicas. É a doutrina do solucionismo.

É a estrutura mental do inimigo.

Pensamos com a estrutura mental do inimigo, o que impossibilita encontrar qualquer solução.

Os industrialistas (de que já falámos há algumas semanas) - aquelas pessoas que pensam que o único modelo de transição energética possível é aquele baseado em instalações de energia renovável à escala industrial para produzir energia à escala industrial com o único e declarado objetivo de manter atual civilização industrial na mesma escala que hoje - não aceitam que possa haver qualquer outro quadro de discussão. Gritam e insistem continuamente que este é o único quadro de discussão e que aqueles que o abandonam são catastrofistas, colapsistas ou, no melhor dos casos, politicamente ingênuos. Entretanto, como já havíamos comentado, caminhamos firmemente para outro choque de preços do petróleo e, possivelmente, do gás natural, enquanto a repetição de cortes e preços nulos ou negativos não só na Espanha mas em toda a Europa mostra que a Indústria Elétrica Renovável (IER ou REI em inglês) está falhando, com o lógico nervosismo geral, em ataques mútuos entre várias fontes geradoras de eletricidade e em explicações muito longas e enfadonhas (além de tecnicamente fracas) de supostos gurus da energia sobre por que isso não é um problema e que há um futuro brilhante para a IER (e não será porque não tenha sido avisados, eu próprio no Parlamento da Catalunha, em Setembro de 2022, numa altura em que as ilustres pessoas que me ouviam podiam deixar de olhar para os seus celulares).

Como se não bastasse, a crise ambiental segue em curso. O desequilíbrio radiativo do planeta atinge 2 watts por metro quadrado, um valor extraordinariamente elevado (a última era glacial terminou com um desequilíbrio temporário quatro vezes menor). A Circulação Meridional do Atlântico (AMOC, em inglês) pode entrar em colapso. Inúmeros ecossistemas em todo o mundo poderão desaparecer. Plásticos e outras substâncias tóxicas entram na nossa corrente sanguínea. A água doce é escassa. A seca é um fenómeno global que coloca milhões de pessoas em perigo alimentar. Todos eles problemas que o IER não só não ajuda a resolver, como na verdade os agrava (incluindo a alegada redução das emissões de CO2). Problemas que não permitem nenhum tipo de adiamento.

"Então, quais são as soluções?"

Há apenas uma.

Saia da estrutura mental do inimigo.

Não há solução possível dentro do capitalismo. Simplesmente não há [negrito nosso].

O crescimento econômico é incompatível com a preservação ambiental. Isto é afirmado pela própria Agência Europeia do Ambiente, que é uma organização dependente da Comissão Europeia.

Não há negociação possível com o capitalismo. A única coisa que podemos discutir é o seu fim, se quisermos ter futuro.

Existem soluções, mas não são de natureza técnica. Isso não significa que a ciência, a tecnologia e o desenvolvimento tecnológico não sejam úteis. Eles são; Além disso, eles são uma parte essencial da solução. Mas fora de uma estrutura capitalista.

Os industriais continuam a fazer barulho uma e outra vez para nos impedir de parar e perceber que o problema está mal colocado. Que o problema não se resolve com mais tecnologia, mas com mais cultura, mais sociedade, pessoas mais verdadeiramente humanas. O solucionismo  [[1]] nos distrai da discussão real.

Durante estes meses continuo conversando com representantes de diversas empresas, todas do setor produtivo. Todos estão conscientes da gravidade do momento. Na verdade, para todos eles (disseram os gestores com quem falei) a chave neste momento não está no crescimento, mas na sobrevivência. Eles não têm certeza se conseguirão sobreviver, estão procurando desesperadamente métodos e formas, de todos os tipos, para sobreviver.

Então, se a indústria tem certeza de que a batalha é outra, a quem interessa esse solucionismo imposto pelos industriais, o mesmo que nos arrasta para a vala?

O solucionismo só interessa ao poder financeiro, pois num mundo pós-capitalista não tem futuro. O setor financeiro é o único que não aceita e nunca aceitará que o mundo mudou, porque aceitá-lo significa aceitar que o seu negócio acabou.

Os industriais, com o seu solucionismo esmagador, falam apenas em nome do poder financeiro. É o único que eles realmente representam.

Entretanto, no mundo real, a mudança de que mais necessitamos é social e cultural. É embaraçoso ver pessoas que dizem vir do campo das ciências sociais cedendo às exigências do industrialismo, aceitando que o momento não é "politicamente maduro" para abandonar o capitalismo (num outro exemplo de paternalismo insultuoso e condescendente).

Pois não. A mudança que necessitamos é cultural, é social, é económica, é política e é radical, pois precisamos ir à raiz do problema. Precisamos sair da estrutura mental do inimigo e começar a pensar por nós mesmos, para sermos livres, para respirar.

E para aqueles que não se consideram capazes de abandonar a estrutura mental do inimigo, eu diria que se não vão ajudar, devem sair do caminho e não atrapalhar - se o seu ego permitir."

 

*= Tradução livre

domingo, 7 de abril de 2024

HÁ 25 ANOS SURGIU O INSTITUTO GAÚCHO DE ESTUDOS AMBIENTAIS – INGÁ

O Início

O InGá, que tem nome associado também a uma árvore (ingá-de-beira-de-rios), surgiu em 7 de abril de 1999, tendo reunido em sua assembleia de fundação, na maior parte de seus membros, biólogos recém egressos do Curso de Biologia da UFRGS, estudantes, membros do Programa Macacos Urbanos e da Comissão de Luta pelo Parque Estadual de Itapoã (CLEPEI), entre outros, em sua maioria jovens.

Inicialmente, essa ONG ambientalista tinha como objetivo principal colocar em prática ações para superar a inquietação de uma juventude que queria estar engajada em projetos em prol da biodiversidade e meio ambiente.

O InGá desenvolvia trabalhos, com apoios principalmente da Fundação O Boticário, com temas como viveiro de plantas nativas, em especial das restingas, no Parque Estadual de Itapuã e na Reserva Biológica do Lami, conservação do bugio-ruivo em Porto Alegre, incluindo corredores ecológicos para esta espécie ameaçada de extinção, envolvimento com a proteção das Unidades de Conservação de Porto Alegre, e contribuir com políticas públicas nestas temáticas.

Árvore de Ingá-de-beira-de-rio, protetora das barrancas dos rios do RS, Sul do Brasil.

Onde Atua o InGá?

Atualmente a ONG InGá, sediada em Porto Alegre, faz parte da representação de uma das 5 entidades, por indicação e compromisso com a Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente (APEDEMA-RS),  no Conselho Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA) e no Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMAM), tendo também atuado no Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA). Por diversas ocasiões, o InGá também fez parte da coordenação da Apedema. Nossa entidade está envolvida em diferentes frentes ambientalistas, tanto dentro como fora dos conselhos, como apresentaremos a seguir. 

O InGá e as Lutas Estaduais

Em âmbito Estadual, temos lutas e ações judiciais, e apoio nas lutas por parte da ONG Curicaca, em defesa da continuidade das atividades da Fundação Zoobotânica  (Jardim Botânico, Museu de Ciência Naturais, Parque Zoológico), sob a responsabilidade da SEMA, pedindo responsabilização por danos em coleções de cactos, por exemplo, e apresentando documentos contrários à Concessão do Jardim Botânico, este processo com certo sucesso na Justiça, até agora. Também apresentamos documentos de questionamentos às concessões do Parque Estadual do Turvo e demais parques estaduais e nacionais (ICMBio), pela forma de modelagem meramente comercial, tecnicamente irregular, sem controles do Estado (não há documento dos técnicos da SEMA que avalizem a concessão) e da sociedade. Desde o final de 2022, o InGá cobra, por ofício à SEMA e ao Consema, uma apresentação da gestão (que deveria ser predominantemente técnica) quanto à administração das UCs do Estado, infelizmente sem respostas. Acompanhamos, por convite ao InGá, por parte da Assembleia Legislativa do RS, a Frente Parlamentar em defesa das Unidades de Conservação. 

No RS, o InGá faz parte do Comitê Contra a Megamineração no RS (CCM-RS) e está em lutas conjuntas contra o Carvão Mineral (Projeto Mina Guaíba, minas de carvão de Candiota e projeto de Termoelétrica a carvão Nova Seival), questionando também os Projetos Caçapava (temporariamente abandonado), Projeto de Mina de Fosfato Três Estradas, em Lavras do Sul. Também fizemos questionamentos por ofício quanto aos Projetos de Parques Eólicos na Laguna dos Patos, já que incidiram em Áreas Prioritárias para a Biodiversidade.  

No que se refere à bacia do rio Uruguai, nossa entidade encaminhou ao MPRS e ao MPF, em 2015, tendo êxito na abertura de ação na Justiça Federal que garante o impedimento da Eletrobras em dar continuidade aos estudos para implantação da Hidrelétrica de Panambi, com lago previsto de 33 mil hectares, a partir do município de Alecrim, com impactos potenciais ao Salto do Yucumã e Parque Estadual do Turvo. Em 2013, estudos anteriores do InGá e ações na justiça colaboraram para um indeferimento histórico, da Licença Prévia à Hidrelétrica Paiquerê, no rio Pelotas (Bom Jesus e Lages), por parte do Ibama, cuja atividade que implicaria o desmatamento de 4 mil hectares de florestas com araucária. O InGá foi o idealizador e um dos coordenadores, junto com Amigas da Terra Brasil e outras entidades, de três eventos denominados Fórum Sobre Impacto das Hidrelétricas (2001, 2005 e 2008), com a forte preocupação com a destruição socioambiental provocada pelos projetos de hidrelétricas, principalmente nas bacias dos rios Pelotas-Uruguai e Taquari-Antas. O Ingá esteve envolvido, inclusive em ações judiciais, com outras entidades, e em apoio ao MAB, na denúncia da fraude do EIA RIMA que resultou na hidrelétrica de Barra Grande, onde foram (2004 e 2005) criminosamente destruídos 6 mil hectares de florestas com araucária, dos mais contínuos remanescentes do Domínio Mata Atlântica no vale do rio Pelotas e bacia do rio Uruguai. Outros projetos também foram denunciados no rio Taquari-Antas, e com várias ações na justiça, encabeçados pelo advogado e doutorando da UFSC, Marcelo Mosmann, por incidir na Zona Núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. 

No aspecto ligado ao campo e à agricultura, o InGá faz parte da Coalizão Pelo Pampa, cobrando em ofícios a obrigatoriedade do cumprimento da Reserva Legal no Bioma Pampa, dos Programas de Regularização Ambiental e do Cadastro Ambiental Rural. Também, nossa entidade, junto com entidades vem cobrando desde 2007 respeito aos ecossistemas naturais que restam dos Campos Sulinos, tentando fortalecer, e não retroceder, no Zoneamento Ambiental da Silvicultura, principalmente no Consema. 

No tema agricultura, em 2021, o InGá somou-se a muitas entidades (Ser Ação, Amigas da Terra, Agapan, entre outras,) contra o PL 260/2020, que acabou sendo aprovado em regime de urgência, flexibilizando uma lei estadual de 1982, que permitiu a comercialização de agrotóxicos sem registro no Brasil. Nossa entidade também é apoiadora de agricultores agroecológicos e co-autora de ações na justiça, cobrando punição, políticas públicas e reparação em relação a ação criminosa de pulverização aérea e deriva de agrotóxicos aos agricultores agroecológicos e moradores de assentamentos de Nova Santa Rita, RS

Em 2020 e 2019, nossa entidade somou-se a outras e também a movimentos contrários à flexibilização de mais de 400 itens do Código Estadual de Meio Ambiente (Lei 11.520/2000), aprovada, via projeto governamental (Governo Eduardo Leite), em regime de urgência, resultando na precária Lei n. 15.434/2020 que deixou mais desprotegida a biodiversidade do RS.

Há uma década e meia, o InGá também é responsável por várias ações contra loteamentos ou condomínios fechados em zonas de restingas no Litoral Norte do RS, por meio de grandes empreendimentos que desrespeitam as leis e a biodiversidade local.

O Ingá e as Lutas Ambientais em Porto Alegre

Até 2016, o InGá como outras entidades, como Econsciência e Amigas da Terra, tinham um espaço de participação no COMAM não estrangulado como a partir de 2017, onde o secretário de meio ambiente da época retirou a indicação que a Apedema fazia (em assembleia) para a representação das ONGs ambientalistas no COMAM. Inclusive, participamos de editais do Fundo Pró Ambiente de Porto Alegre, tendo sido uma das entidades selecionadas em três anos com recursos para projetos. Estes editais ocorriam até 2016. Em 2013, fomos resposnsáveis pela Cartilha das Frutas Nativas de Porto Alegre.

Atualmente, mais concentrados em Porto Alegre. Em junho de 2020, lançamos o documento Dar Visibilidade à Temática Ambiental nas Eleições Municipais de Porto Alegre. Atualmente, estamos nas Lutas em Defesa do Parque Harmonia, Anfiteatro Pôr do Sol, Orla do Guaíba Pública, sem concessões privadas e destruição de Parques e demais Áreas Verdes.

Em Porto Alegre. Nossa entidade, junto com outras, vem lutando contra o Arboricídio na Capital e pela qualificação da Arborização, inclusive tendo obtido na ação na Justiça  contra o fechamento e pela garantia da revitalização do Viveiro Municipal da SMAM. Em dezembro de 2023, o InGá obteve a aprovação, pelo COMAM, das Listas de Flora Ameaçada e Rara com ocorrência natural em Porto Alegre, publicado no dia 9 de janeiro de 2024, no Diário Oficial do Município. Vimos também tentando, desde 2021, a constituição de um Grupo de Trabalho para acompanhar e fortalecer as Unidades de Conservação Municipais, no COMAM.

Entre 2022 e 2023, o InGá assumiu críticas e contribuições ao Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica em Porto Alegre.

Há mais de uma década e meia, o InGá, junto com a ONG UPV, Preserva Arroio Espirito Santo, entre outros, também atua no questionamento ao Loteamento Ipanema, que poderia destruir com pelo menos a metade dos 13 hectares de remanescentes da Mata Atlântica naquele bairro, com a defesa desta área por parte dos advogados Marcelo Mosmann e Luciele Souza.  Da mesma forma como entidades de Porto Alegre, o InGá foi crítico e denunciou o empreendimento Arado Velho (Ponta do Arado), em Belem Novo, onde a SMAMUS promoveu a mudança de Regime Urbanistico, que era de Área de Proteção ao Ambiente Natural para Área de Uso Intensivo, no Plano Diretor Urbano e Ambiental de Porto Alegre. Na mesma linha, criticamos o Projeto de Loteamento Alphaville II, pois destruiria também com áreas naturais e colocaria em risco espécies ameaçadas de extinção de flora e fauna.

No tema da arborização, o Ingá participou de várias denúncias em um movimento denominado  “Chega de Arboricídio em Porto Alegre”, com mobilizações (denúncia do Guapuruvu da 24 de Outubro) ofícios aos órgaos municipais, Prefeitura de Porto Alegre eMinistério Público do RS, incluindo atividades de atos públicos na frente da SMAMUS, em outubro de 2023, com entrega simbólicas de um Machado de Prata, direcionado ao Secretário Germano Bremm, na SMAMUS, e entrega conjunta de uma Motoserrea de Ouro ao Prefeito Sebastião Melo, em evento sobre o Plano Diretor, na PUCRS, também em 2023. 

Em janeiro de 2024, o InGá solicitou, via ofício, espaço de acompanhamento, discussão e sugestões nas intervenções de podas e supressões ("manejo") em o acordo entre Prefeitura e CEEE-Equatorial e MPRS, infelizmente sem respostas.

Em mais de uma ocasião, o InGá denunciou à SMAMUS e ao MPRS em relação a desmatamentos de ecossistemas de restinga do Lami, incluindo queimadas, uso de trator e outras intervenções (com registro de morte/caça de jacarés), e evidentes tentativas de ocupação irregular. 

Por outro lado, nossa entidade se envolve em ações de valorização local de áreas naturais e áreas verdes, auxiliando a coordenação de atividades no Anfiteatro Pôr do Sol (caminhada “Conversa ao Pé das Árvores”, mini-show artístico no Anfiteatro, em 2023, e Celebração do Dia dos Butiás, em 2024). 

Existem outras atividades do InGá em Porto Alegre, algumas que implicam em Educação Ambiental no plantio de árvores nativas, em atos com comunidades ou entidades. 

Entrando de “Cabeça” nas Políticas Públicas, em defesa na natureza dentro e fora do InGá

Ao longo do tempo, provavelmente pela experiência no InGá e, mesmo antes, nas lutas ambientais de engajamentos de estudantes de biologia, no Diretório Acadêmico do Instituto de Biociências (DAIB), muitos dos membros dessa ONG, principalmente biólogos, tiveram sucesso em suas carreiras profissionais, após concursos no IBAMA, posteriormente também ICMBio, SEMA do RS, SMAM de Porto Alegre, Petrobrás, etc. Ao longo dos anos, a entidade iria perdendo seus membros fundadores, pois assumiam trabalhos técnicos nos órgãos ambientais, principalmente a partir dos primeiros anos da década de 2000. De qualquer maneira, houve renovação e inclusão da participação de diferentes áreas de atuação e formação, além de biólogos(as).

O InGá participou do Conama, representando uma das duas entidades da Região Sul, entre 2011 e 2012, tratando de, junto com outras entidades do Conselho, a aprovação da obrigatoriedade de Avaliações Ambientais Integradas (AAI) de cada bacia como condição para a construção de hidrelétricas. Ibama e MMA infelizmente pediram para arquivar. Cobramos a efetividade das Áreas Prioritárias para a Biodiversidade (Portaria MMA n. 9 de 23 de janeiro de 2007) e da consolidação do Corredor Ecológico Aparados da Serra-Rio Pelotas, infelizmente com poucos êxitos devido ao forte lobby dos setores econômicos contra os avanços nas políticas ambientais.

O InGá também associou-se a outras entidades nas lutas contra a flexibilização do Código Florestal Federal, Lei 4771/1965, infelizmente precarizada pela Lei n. 12.651/2012, a Lei de Proteção da Vegetação Nativa. Também estivemos denunciando o avanço dos Transgênicos na agricultura (soja, milho, algodão, feijão, cana-de-açúcar e agora trigo). 

Futuro? 

Diante da Crise Climática e Ambiental alertada, a partir dos dados mais recentes que apontam que 2023 foi o ano mais quente (temperatura atmosférica global) já registrado, o valor de 420 partes por milhão (ppm) de CO2 é o mais alto em 14 milhões de anos, a Sexta Extinção em Massa está em curso, a poluição das águas, do ar e solo não para de crescer (Ver figura do Grupo de Estudos de Estocolmo). Assim, reconhecemos que a crise sistêmica pode ser já, muito provavelmente, uma premonição de um Colapso da Ecosfera, e teremos que nos preparar para a reversão no atual modelo econômico autofágico, ecocida, concentrador e gerador de desigualdades e muita miséria. Nossa entidade, por sua vez, acredita que para um país se tornar ecologicamente sustentável, biodiverso, tem que fortalecer os territórios da sociobiodiversidade e, sobretudo, romper com a obsessão pelo crescimento econômico, a concentração ilimitada de capital e de propriedade. O modelo capitalista é talvez a maior fonte de todos os males socioambientais que colocam em risco a Ecosfera e o futuro das novas gerações e dos demais seres vivos deste Planeta.


Seguimos mais comemorações, por muitas décadas, de nossas lutas coletivas em prol da Natureza e a Sociobiodiversidade!

Algumas das publicações do InGá em autoria ou co-autoria

Hidrelétricas na Bacia do Rio Uruguai 

Flora da Bacia do Rio Pelotas , 

Livro“Eucaliptais: Qual Rio Grande do Sul desejamos

Lavouras de Destruição: a (im)posição do consenso

Os comandantes da Nau Terra enlouqueceram? E nós, para onde vamos?

Cartilha das Frutas Nativas de Porto Alegre

Dar visibilidade à temática ambiental às eleições municipais de Porto Alegre

Como apequenar uma Conferência Municipal do Meio Ambiente em Porto Alegre por InGá)

domingo, 14 de janeiro de 2024

VERÃO, NO RS, É ÉPOCA DOS MANACÁS NATIVOS.

Os manacás fazem parte da família das Melastomatáceas (algumas que eram incluídas no gênero Tibouchina), lindas, desconhecidas e, portanto, negligenciadas no RS e no Brasil. Pelo menos a metade delas ameaçada de extinção, pela destruição da vegetação nativa e conversão em monoculturas ou em explosão imobiliária no litoral e regiões turísticas. Algumas levadas para o exterior fazem sucesso em outros continentes, enquanto aqui se plantam hortênsias asiáticas e outras exóticas que descaracterizam nossa paisagem outrora biodiversa...A seguir apresentaremos um conjunto de espécies do gênero Pleroma com nomes comuns inventados pela ausência de nomes populares conhecidos no Estado ou no Brasil, em decorrência do desconhecimento e negligência geral frente ao tema.

1. MANACÁ-DA-PRAIA, MANACÁ-VELUDO-DA-PRAIA (Pleroma urvilleanum)

Planta ornamental das restingas litorâneas do RS e litoral Sul do Brasil. Ameaçada de extinção (Em Perigo segundo o Decreto Estadual n. 52.109/2014). Negligenciada aqui, desconhecida dos brasileiros, mas levada para outros paises e continentes, sendo comercializada com nome de Princess Flower ou Glory Bush. Em sua região de origem não existe NENHUM VIVEIRO que a produza. Aqui, lamentavelmente, só se propagam e comercializam plantas exóticas. Segue foto de Capão Novo, Capão da Canoa, RS.







Olhem o sucesso delas lá no exterior: https://plants.ces.ncsu.edu/plants/tibouchina-urvilleana/




2. MANACÁ-DO-BANHADO (Pleroma asperius). Espécie restrita às restingas úmidas do Litoral Norte e Médio do RS e Litoral de SC, em areas úmidas submetidas a aterros para urbanização, está ameaçada de extinção. Observação: as folhas têm pelos duros e ásperos, daí o nome do epíteto específico: asperius. Foto de Terra de Areia, com o professor e botanico João André Jarenkow. 




Detalhes sobre a espécies https://www.scielo.br/j/rod/a/7Nmz3pyhKcv5JXjZmy4YGds/

3. MANACÁ-DA-SERRA (Pleroma sellowianum), também chamada quaresmeira-serrana, é uma arvoreta belíssima e característica dos Aparados da Serra no RS e SC. Infelizmente, planta negligenciada e substituída pela arbusto asiático hortênsia que, pela xenofilia reinante, acabou caracterizando a chamada Região das Hortênsias...Foto do Itaimbezinho, Parque Nacional Aparados da Serra.









4. MANACAZINHO-DA-SERRA (Pleroma ramboi). Restrita aos Aparados da Serra, é um arbusto baixo muito lindo, de barrancos úmidos, e se caracteriza por ter cílios na margem das folhas. Deve ser incluída na lista de espécies ameaçadas de extinção por seu endemismo à região dos Aparados. Tem nome científico (ramboi) associado ao naturalista e botânico Balduino Rambo que coletava milhares de plantas e incluía nas coleções de herbários, as chamadas exsicatas de herbário.

5. MANACÁ-GRANDE-DO-BREJO (Pleroma trichopodum). Lindo arbusto, alto e raro, estando ameaçado de extinção (Em Perigo) pelo Decreto Estadual n. 52.109/2014. Tem potencial ornamental, mas é desconhecido como todas as espécies de manacás nativos do RS. "Sirvam nossas façanhas de modelo à toda Terra"? Foto de matas em beira de lagoas quase desaparecendo, nos litorais de SC e do RS.

6. MANACAZINHO-DA-AREIA (Acisanthera quadrata). Rara e linda erva ou subarbusto do Litoral do RS, dos campos arenosos. Pouquíssimo conhecida e com enorme potencial ornamental. 

7. MANACÁ-DO-CAMPO (Chaetogastra gracilis). Erva comum dos campos do RS, mas apesar de seu potencial ornamental é desconhecida e negligenciada como quase todas as centenas de plantas ornamentais nativas do RS. Uma curiosidade: os campos de minha universidade (UFRGS) estão cheios delas em flor, sabem por quê: a universidade não tem dinheiro para manter o convencional corte raso da grama ou "campo de golfe". Bem feito! A natureza agradece. Podem cortar os gramados, claro, mas deixem elas floresceram e os bichinhos terem alimento e nossos olhos se encantaram com elas, ora bolas... 

8. MANACAZINHO-DOS-CAMPOS-DE-CIMA-DA-SERRA (Chaetogastra riograndensis)
Espécie descrita há 8 anos para o Parque Estadual de Tainhas, Jaquirana, nos Campos de Cima da Serra. Segue imagem do trabalho dos autores (Meyer e Goldenberg, 2016) 


9. MANACÁ-BRANCO-DO-BREJO (Huberia semiserrata). Linda e raríssima planta de matas de restinga úmida, vegetação criticamente ameaçada pela conversão em arrozais no Litoral de SC e RS. Desconhecida e negligenciada. Essa linda planta não é vista em viveiro nenhum. Poderia ser propagada no Jardim Botânico de Porto Alegre.




Bibliografia recomendada:

Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, vol. 6. ISBN 978-85-7523-057-2 (online) Martins, A.B. (coord.) 2009. Melastomataceae In: Martins, S.E., Wanderley, M.G.L., Shepherd, G.J., Giulietti, A.M., Melhem, T.S. (eds.) Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. Instituto de Botânica, São Paulo, vol. 6, pp: 1-168


Flora do Brasil.
Flora e Funga do Brasil - Reflora
. https://floradobrasil.jbrj.gov.br

Laureano, M.H. 2020. Melastomataceae Juss. do complexo de Serras da Bocaina e de Carrancas, Minas Gerais, Brasil. Dissertação de Mestrado. UFU. 


Santos et. al. 2022. Distribution of Pleroma asperius (Melastomataceae) in Rio Grande do Sul, Brazil: spatial analysis for conservation strategie. Rodriguesia 73.