quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Realizada a reconstituição dos casos de desaparecimento e morte de trabalhadores da Papeleira Laja, da CMPC, em 1973 (sul do Chile)



Há 41 anos, no dia do Golpe Militar no Chile, 19 pessoas (sendo 14 trabalhadores da CMPC), mais 5 pessoas, entre estudantes e professores, da cidade de Laja, no sul do Chile, foram chacinados e investigações foram retomadas nas últimas semanas e, com elas, se denuncia cumplicidade da empresa CMPC naquele país.

Matéria de El Clarin de Chile

Maria Eliana Vega (5 de setembro de 2014)
foto El Clarin de Chile
Uma nova reconstituição dos acontecimentos que culminaram com a detenção e morte de mais de uma dúzia [14] de trabalhadores da Papeleira Laja, da CMPC, foi realizada nesta quinta-feira por Carlos Aldana, ministro em visita para causas de direitos humanos, que realizou diligências no juizado local, no interior da área da papeleira e em um terreno diferente de onde se praticou a primeira reconstituição, em agosto de 2011.

Desta vez, o ministro Aldana procurava investigar a participação de civis na detenção dos trabalhadores que foram executados logo após o golpe militar de 11 de setembro de 1973.

Ele realizou a primeira diligência no Juizado de Letras de Laja, onde ouviu depoimentos e confrontou ex-executivos da unidade industrial de Laja com os dez ex-carabineiros processados nessa causa, e também com testemunhas dos fatos.


Terminada essa diligência, a comitiva composta por oito veículos da PDI (Policia de Investigaciones de Chile), além do apoio de pessoal de Carabineiros, deslocou-se para a entrada da empresa, com a finalidade de saber como eram apartados os trabalhadores, quais deles lidavam com as listagens e se efetivamente pessoal policial da época ingressou nas instalações da empresa para realizar as detenções.


Ali, já se encontravam reunidos familiares e amigos das vítimas que, a viva voz, gritavam, ao ingresso dos veículos policiais, os nomes dos que tinham sido autores dessas execuções. Nesse local, se soube como foram detidos os trabalhadores entre os dias 11 e 17 de setembro de 1973. Os primeiros foram transferidos ao Regimento de Los Ângeles, enquanto os que foram detidos entre 15 e 17 de setembro foram levados ao destacamento da rua Las Viñas, na comuna de Laja, e posteriormente foram executados em uma área pertencente à empresa papeleira.

Em frente à empresa, dois trabalhadores mostraram ao ministro Aldana, com a presença de um ex-executivo, como eram identificados, retirados das filas e posteriormente golpeados, em um canto de acesso à CMPC, para logo em seguida serem retirados dali, em diferentes veículos. Com essas diligências, buscava-se deixar claro os vínculos que teriam a empresa e os altos executivos da mesma no ano desses acontecimentos.


 Posteriormente, as diligências se deslocaram para a rodovia Ruta 90, a 24 km de Laja, especificamente em um novo local, denominado Fundo San Ignácio, onde camponeses assinalaram onde seria o local exato em que ocorreram as execuções. Uma vez realizados todos os trabalhos investigativos, tomando-se os depoimentos tanto dos camponeses como dos ex-carabineiros, o ministro Carlos Aldana conversou com os meios de comunicação, assinalando que no local se pôde tomar conhecimento sobre “as formas como eram realizadas as detenções, quem as realizaram e que informações tinham para escolher as pessoas..” Consultado a respeito da responsabilidade que a empresa privada  ou civis poderiam ter nesses acontecimentos, respondeu que “toda a informação está sendo por nós processada, e essa não é uma questão que eu possa responder agora”.

Em relação ao local, que não é o mesmo onde foram foi realizada a reconstituição dos fatos há três anos, o ministro explicou que a ideia foi “estabelecer uma aproximação com local exato onde teria havido a execução dessas 19 pessoas”, verificando, com as novas informações, se efetivamente era aquele o local”.


Quanto ao prazo que possui para encerrar a investigação, disse que “se está  trabalhando com toda a celeridade que permitem nossas capacidades...” Carlos Aldana mostrou-se próximo aos familiares, permitindo-lhes conhecer em primeira mão algumas informações sobre o processo. Uma delas foi a declaração dos camponeses, afirmando saber onde se situava o local onde houve as execuções. Nesse sentido, o ministro acrescentou que “tem sido uma política adotada com todos os familiares e todas as agrupações que têm acesso às informações que nós temos. Para os familiares, que precisam ter a paz que qualquer pessoa necessita para saber onde e de que forma foram executados seus entes, é muito importante que eles estejam presentes nas diligências e saibam quais as informações que nós possuímos”.

Por sua parte, o diretor nacional da Brigada de Homicídios da PDI, Sergio Claramunt Lavín, conseguiu a participação de cerca de 25 funcionários do órgão na região, com o apoio de veículos e de seu Laboratório de Criminalística de Concepción, somando a perícia fotográfica, perimétrica e audiovisual para levar adiante as diligências solicitadas pelo ministro e que permitam esclarecer os acontecimentos ocorridos em setembro de 1973.

O diretor Claramunt expressou que “é uma investigação que vem sendo feita há anos, e conseguiu-se a cooperação de todas as pessoas nesta ação, e como se passou tanto tempo, devemos nos aproximar das pessoas para que possam cooperar, conseguimos boas informações e se pode assim estabelecer responsabilidades”, ressaltou. Com as informações levantadas na diligência, o ministro Aldana contará com novos elementos para decidir os próximos passos nesta investigação. 


tradução de Renzo Bassanetti

Mais informações sobre a "Chacina de Laja", e denúncias em relação a CMPC, no Chile:

Segue Informe Policial, da Polícia de Investigações do Chile (2011):
http://ciperchile.cl/wp-content/uploads/informepolicial.pdf
 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Carta do MST às candidatas e candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais

Os períodos eleitorais devem ser momentos de debate sobre as grandes questões estruturais da sociedade brasileira, apontando a natureza de nossos problemas e as soluções necessárias. Infelizmente, cada vez mais, o poder do capital sequestra a política e as instituições públicas, impedindo as transformações políticas e econômicas, que interessam ao povo brasileiro.
 
Há 30 anos, o MST tem contribuído com a democratização da terra, através da luta pela Reforma Agrária. Em fevereiro de 2014, realizamos nosso VI Congresso, com a aprovação de nosso Programa Agrário em defesa da Reforma Agrária Popular. Lutamos por mudanças na relação com os bens da natureza, na produção de alimentos e nas relações sociais no cam­po. Queremos contribuir de forma permanente na construção de uma sociedade justa, igualitária e democrática.
 
 A terra precisa ser democratizada e cumprir com sua função social. O campo dever ser um espaço bom de viver, onde as pessoas tenham seus direitos respeitados, com a garantia de condições dignas de vida. Lutamos e exigimos uma política efetiva, estruturante e massiva de Reforma Agrária Popular, indispensável para a permanência das famílias no campo, com produção e distribuição de riquezas. 

Exigimos a atualização imediata dos índices de produtividade prevista na legislação brasileira, possibilitando o acesso à terra a milhares de famílias. Precisamos da elaboração e execução de um novo Plano Nacional de Reforma Agrária - PNRA, com metas de assentamento de famíliase estabelecimento de prioridades por regiões. É necessário a arrecadação das terras griladas da União e a desapropriação de latifúndios em todos os estados. Além disso, as terras devolutas invadidas por fazendeiros e principalmente, pelo capital bancário e pelas empresas transnacionais do agronegócio, devem ser desapropriadas para fins de Reforma Agrária. O mesmo deve acontecer com as fazendas endividadas com os bancos públicos e órgãos do governo, com as áreas onde houver identificação com exploração de trabalho escravo e as que não cumprem a função social.
 
Cobramos o assentamento imediato das mais de 120 mil famílias que estão vivendo em condições precárias em centenas de acampamentos por todo o país. É necessário destinar para a Reforma Agrária as terras dos projetos de irrigação e as do entorno dos canais de transposição das águas. Para isso, faz-se necessário o fortalecimento, reorganização e qualificação do INCRA, como órgão responsável pela Reforma Agrária e que garanta as condições de implementá-la. 

Nos somamos às lutas e às reivindicações, junto às demais forças sociais do campo, para a imediata demarcação e legalização de todas as áreas indígenas e quilombolas e as de posse de ribeirinhos, pescadores e comunidades tradicionais, como estabelece a Constituição Federal de 1988.
 
A não realização da Reforma Agrária agrava os conflitos sociais no campo. Clamamos por justiça e pela punição aos mandantes e assassinos dos trabalhadores e trabalhadoras no campo. 

A agricultura brasileira deve priorizar a produção de alimentos saudáveis, como um direito humano e como princípio da Soberania Alimentar. Alimento não pode ser mercadoria, fonte de exploração, lucro e especulação. Para isso, exigimos políticas públicas que garantam condições para a produção agroecológica, sem agrotóxicos, com qualidade, diversidade e preço barato para toda a população brasileira. Os governos, federal e estaduais, precisam incentivar e garantir a produção, seleção e armazenamento de sementes pelos próprios camponeses, combatendo assim as sementes transgênicas e a dependência política e econômica das empresas transnacionais que monopolizam sua produção e comercialização. Somos contra as leis de patentes e a privatização de nossas sementes.
É indispensável, para o desenvolvimento social e econômico do campo, retomar, ampliar e garantir os instrumentos de compra de todos os alimentos produzidos pela agricultura camponesa, para atender escolas, sistema de saúde, de segurança e universidades, a exemplo do Programa de Aquisição de Alimentos - PAA e Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE.  

A educação é um direito fundamental de todas as pessoas e deve ser atendido no próprio lugar onde vivem, respeitando o conjunto de suas necessidades humanas, culturais e sociais.Necessitamos que todas as áreas de assentamentos e acampamentos tenham sua própria escola, com condições necessárias para o seu funcionamento. Não aceitamos o fechamento de nenhuma escola do campo e exigimos a implementação de um programa massivo de erradicação do analfabetismo. Lutamos pela defesa, universalização, ampliação de recursos e o acesso efetivo ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – PRONERA, garantindo que jovens e adultos, que vivem no campo, possam avançar na escolarização.
 
O assentamento é nosso território de luta, produção, reprodução e garantia de nossa vida, lugar de defesa e construção de um modelo de agricultura, com a produção de alimentos saudáveis e acesso aos bens sociais e culturais. Para isso, é necessário assegurar condições dignas de vida às populações camponesas e urbanas, produzindo uma nova sociabilidade. 

Exigimos políticas de proteção dos bens naturais, das águas e fontes, assegurando que todas as famílias camponesas tenham acesso à água potável e de qualidade, com saneamento básico. Repudiamos o processo de privatização da água.
Lutamos pela implementação de um programa de moradia popular no campo, que garantao seu acesso de forma rápida e desburocratizada, eliminando o déficit atual de mais de 1 milhão de casas para a população camponesa. 

Reivindicamos a ampliação e execução de um programa de agroindustrias nas áreas de Reforma Agrária, a partir das cooperativas de trabalhadores e trabalhadoras, de forma desburocratizada.  É preciso assegurar o desenvolvimento de tecnologias apropriadas à realidade das comunidades camponesas com o desenvolvimento de programas de máquinas e equipamentos agrícolas. 

É urgente a reorganização e fortalecimento do sistema público de Assistência Técnica e Extensão Rural, voltado e subordinado às necessidades e objetivos dos camponeses e das camponesas. A ele deve somar-se um programa de crédito rural que contribua para a estruturação do conjunto de todas as unidades e sistemas produtivos, estimulando e fortalecendo o cooperativismo, a comercialização e a industrialização da produção. Exigimos a garantia e ampliação dos direitos trabalhistas e previdenciários aos trabalhadores e trabalhadoras do campo e assalariados rurais.
 
É necessário o compromisso de todos e de todas para a realização de uma ampla reforma política,que democratize as instituições e possibilite ao povo o direito de escolher seus representantes.  E para isso exigimos a convocação de uma Assembleia Constituinte soberana e exclusiva, ainda em 2015.
 
São essas algumas das mudanças urgentes e necessárias, para melhorar as condições de vida e de renda no campo, que todos os governantes eleitos devem implementar. Reafirmamos nossa disposição em lutar, de forma permanente, em defesa e na construção da Reforma Agrária Popular e de uma sociedade socialista. 

Direção Nacional do MST
 
São Paulo,30 Agosto de 2014

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

QUE RIO GRANDE DO SUL QUEREMOS, NA ÁREA AMBIENTAL?


*Paulo Brack (11-08-2014)

A convite da AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), trazemos aqui alguns apontamentos como contribuição para os debates dos programas ambientais, inclusive neste ano eleitoral de 2014, mesmo levando-se em conta a crise política e de representatividade em que vivemos. Não podemos nos ausentar destes debates, mesmo que tenhamos dúvidas quanto à legitimidade do processo que permite, por exemplo, que partidos utilizem-se, injustamente, de financiamentos privados de campanha por parte de empresas – em geral gigantes - que degradam o meio ambiente e comprometem a democracia. Atualmente, a sociedade está em grande parte descrente do processo político institucional, pois a maior parte dos partidos não possui base eleitoral representativa e democrática, e estes não representam mais do que os seus interesses pessoais. Assim, uma reforma política profunda é urgente para que se possa retornar aos preceitos éticos elementares e a moralidade administrativa, refletindo os avanços que a sociedade impõe, via bem comum, sobre os interesses de grupos econômicos gananciosos e de políticos profissionais. Mas a vanguarda disso não pode cair de novo na mão de partidos. Neste aspecto, a sociedade deve estar atenta, acompanhando, cobrando e refutando a sensação de “normal” aos descaminhos da política e dos atuais retrocessos ambientais[1].

Seguem nossas avaliações e propostas, dentro de algumas prioridades e também dentro doas temas que mais acompanhamos, nos quase oito anos de Consema (Conselho Estadual de Meio Ambiente), por parte de nossa representação pelo Ingá, entidade indicada pela Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente (Apedema-RS). Em 2010, pudemos participar junto com a Apedema, o Mogdema (Movimento Gaucho em Defesa do Meio Ambiente) e com outros ativistas ambientais da plataforma[2] para aquelas eleições.

sábado, 26 de julho de 2014

NA IMINÊNCIA DE UMA NOVA EXTINÇÃO [matéria Ciência Hoje On-line]

Matéria de Henrique Kugler, em Ciência Hoje On-Line de 25/07/2014 resgata um tema inquietante sobre dados que confirmam que a Sexta Extinção em Massa de espécies que habitam a Terra e que "não está mais prestes a acontecer. Na verdade, ela já começou. E o ser humano é o principal responsável por esse declínio, dizem pesquisadores." Segue parte da matéria:

 

"Bem-vindo à sexta extinção em massa. Para quem ainda estava na dúvida, vale uma olhadinha na última edição da revista Science: pesquisadores concluem que a valiosa biodiversidade da Terra está sendo dizimada de maneira implacável – não pelos recorrentes processos naturais de extinção; e sim pelas atividades antropogênicas.
É verdade que, na natureza, espécies surgem e desaparecem a todo instante. Mas, de quando em quando, esses eventos assumem proporções drásticas.
E o que é, afinal, uma extinção em massa? Não há consenso sobre as especificidades técnicas desse conceito, mas, em princípio, assume-se que seja um evento no qual, em uma janela de tempo relativamente breve, constata-se o desaparecimento de pelo menos 75% das espécies de um determinado grupo."
Mais detalhes: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2014/07/na-iminencia-de-uma-nova-extincao 


Em 2002, Edward Wilson, um dos maiores especialistas no tema da biodiversidade mundial, estimava que se extinguiriam cerca de 30 mil espécies por ano em decorrência das atividades humanas, podendo-se entender aqui as atividades das chamadas "sociedades modernas". Admitia que até o final do século XXI se extinga a metade das espécies existentes, em decorrência dos fatores como degradação de habitat, incluindo agora os fenômenos ligados às mudanças climáticas.1 Segundo o autor, cada fase de extinção - na escala já existente e prevista para as futuras décadas - levaria, pelo menos, 10 milhões de anos para se recompor aos níveis anteriores à perda. Tal situação, segundo ele, poderia ser chamada de a “Sexta Extinção em Massa”, fenômeno que é representado por situações extremas de perda de biodiversidade, já verificado em outros períodos geológicos.
Da mesma forma que Wilson, o paleontólogo norte americano Niles Eldredge2 assinala que a maior parte dos especialistas na temática da biodiversidade admite, também, que a Terra enfrenta uma perda crescente de espécies, de tal forma que ameaçaria concorrer com as cinco maiores extinções do passado geológico. Eldredge acredita que a atual crise da biodiversidade (“Sexta Extinção”) seria, provavelmente, ainda mais severa e iminente que aquela que Edward Wilson previu.
No que toca a outros resultados dessa alteração ambiental mais global, o Worldwatch Intitute acredita que cerca de 60% dos serviços (funções de regulação) dos ecossistemas (e.g., regulação do clima, água potável, tratamento de resíduos, pesca) estão sendo degradados ou usados de forma insustentável. E a perda ambiental estaria associada à cultura que incentiva as pessoas a definirem a sua felicidade e seu sucesso em termos de quanto eles consomem.
O uso dos recursos naturais globais se expandiu em 50% nas últimas três décadas. Esta tendência, juntamente com as taxas de crescimento da população, ainda é crescente e não considera os limites de um planeta finito como a Terra.
Na atualidade, as áreas naturais estão tornando-se cada vez mais impactadas, com maior fragilidade no que se refere a sua capacidade particular de resiliência. Na maior parte das vezes, a pressão sobre a diversidade biológica é decorrente dos efeitos da fragmentação de habitat, da extração seletiva de espécies, da expansão de espécies exóticas invasoras e pela completa substituição dos ambientes naturais por usos intensivos do solo, entre vários outros fatores, nas áreas com intervençãohumana.
Em 2002, os líderes governamentais da maior parte dos países, incluindo o Brasil, concordaram em atingir uma redução significativa na taxa de perda de biodiversidade até 2010. Para isso, elaboraram um conjunto de metas nas reuniões posteriores da Convenção sobre Diversidade Biológica, as chamadas “Metas da Biodiversidade 2010”. Entretanto, segundo o próprio Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, “o objetivo não foi cumprido”, tendo ressaltado que “as principais pressões que conduzem à perda de biodiversidade não são apenas constantes, mas estão, em alguns casos, se intensificando”.


1.  WILSON, Edward O. The Future of Life. New York: A. Knopf Publisher, 2002.
2. ELDREDGE, Niles. The Sixth Extiction. Actionbioscience. 2001




 

domingo, 29 de junho de 2014

Anteprojeto sobre agrobiodiversidade ignora direitos de agricultores familiares e indígenas - Juliana Santini



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Artigo de Juliana Santilli publicado recentemente no sítio-e do ISA (Instituto Socioambiental) critica anteprojeto de lei elaborado pelo Ministério da Agricultura (MAPA) sem ter sido realizada nenhuma consulta a organizações da sociedade civil e movimentos sociais. Juliana Santilli é promotora de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, sócia fundadora do ISA e autora do livro “Agrobiodiversidade e Direitos dos Agricultores” (Ed. Peirópolis, 2009).

O Ministério da Agricultura (Mapa) elaborou um anteprojeto de lei para regular o acesso e o uso da agrobiodiversidade. A proposta desrespeita e restringe os direitos dos agricultores familiares, populações indígenas, tradicionais e locais, que são os principais responsáveis pela conservação e uso sustentável da biodiversidade agrícola brasileira. O anteprojeto foi elaborado sem qualquer participação das organizações e dos movimentos sociais representativos dessas comunidades. (O anteprojeto e sua exposição de motivos não eram conhecidos do público e podem ser acessados). 

Trata-se de uma proposta elaborada exclusivamente pelo e para o agronegócio, e sem qualquer consulta aos demais atores sociais que compõem o rico e complexo universo agrário e agrícola brasileiro. A própria exposição de motivos do anteprojeto reconhece que o texto “foi amplamente discutido com instituições representativas do agronegócio” – como a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) e a Frente Parlamentar da Agropecuária – e que “obteve apoio” de todas essas organizações. 

E as organizações representativas da agricultura familiar, tradicional e agroecologica? Foram simplesmente ignoradas em um anteprojeto que pretende nada menos do que regular “o acesso ao patrimônio genético destinado à alimentação e à agricultura, aos conhecimentos tradicionais associados, a repartição de benefícios para a sua conservação e uso sustentável”, bem como “implementar os direitos de agricultor previstos no Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para Alimentação e Agricultura (TIRFAA)”.

A proposta nega direitos aos agricultores, ao afirmar expressamente que: “o acesso à variedade tradicional, local ou crioula ou à raça localmente adaptada ou crioula para as finalidades de alimentação e de agricultura compreende o acesso ao conhecimento tradicional associado e não depende da anuência do agricultor tradicional que cria, desenvolve, detém ou conserva a variedade ou raça” (art.5º, §1º, negritos nossos). A justificativa da exposição de motivos para isso é de que “não importa qual o povo ou comunidade que ‘inventou’ o recurso genético”. 

A agrobiodiversidade passa a ser considerada pelo anteprojeto como “bem da União” (art.2º), gerido única e exclusivamente pelo Mapa (art.4º, caput) e sem qualquer participação dos agricultores e de suas organizações. Caberá também unicamente ao Mapa definir como aplicar os recursos destinados à implementação dos direitos de agricultor (art.4º, IX). Ou seja, os agricultores e suas organizações não terão qualquer direito de decidir sobre as formas de utilização de eventuais recursos que lhes sejam destinados por meio do Fundo Federal Agropecuário, administrado também exclusivamente pelo Mapa e sem qualquer participação social.

domingo, 8 de junho de 2014

COMO O CRESCIMENTO ECONÔMICO VIROU ANTI-VIDA

Por: Vandana Shiva (http://imediata.org/?p=4194)
Fonte: The Guardian, Tradução: Mario S. Mieli




A obsessão com o crescimento eclipsou nossa preocupação com sustentabilidade, justiça e dignidade humana. Mas as pessoas não são descartáveis – o valor da vida encontra-se fora do desenvolvimento econômico.


O crescimento ilimitado é a fantasia dos economistas, negócios e políticos. Ele é visto como uma medida do progresso. Em consequência disso, o produto nacional bruto (PNB), que deveria medir a riqueza das nações, emerge tanto como o número quanto como o conceito mais poderosos em nossa era. Entretanto, o crescimento econômico esconde a pobreza que cria, através da destruição da natureza, a qual, por sua vez, leva a comunidades destituídas da capacidade de suprirem a si mesmas.

O conceito de crescimento foi colocado como uma medida da capacidade de mobilizar recursos durante a Segunda Guerra Mundial. O PNB se baseia em criar limites artificiais e fictícios, pressupondo que se você produz o que consome, você não produz. De fato, o “crescimento” mede a conversão da natureza em dinheiro líquido, e os bens comuns em commodities.

Dessa forma, os impressionantes ciclos da natureza de renovação da água e dos nutrientes são definidos como não-produção. Os camponeses do mundo, que fornecem 72% dos alimentos, não produzem; as mulheres que praticam a agricultura ou que fazem a maior parte do trabalho doméstico também não se enquadram neste paradigma do crescimento. Uma floresta viva não contribui ao crescimento, mas quando as árvores são cortadas e vendidas como madeira, daí temos crescimento. Sociedades e comunidades sadias não contribuem ao crescimento, mas doenças criam crescimento por meio de, por exemplo, venda de remédios patenteados.

A ALTERNATIVA ECOSSOCIALISTA



(http://rio20.net/pt-br/documentos/a-alternativa-ecossocialista/)  
 
 O atual modelo de desenvolvimento está em crise. É ao mesmo tempo uma crise econômica e uma crise ecológica. Ambas resultam do mesmo fenômeno: um sistema que transforma tudo – a terra, a água, o ar que respiramos, os seres humanos – em mercadoria e que não conhece outro critério a não ser a expansão dos negócios e a acumulação de lucro. As duas crises são aspectos interligados de uma crise mais geral, a crise da civilização capitalista industrial moderna.
O discurso hegemônico atual sobre o “desenvolvimento sustentável”, que se manifesta, entre outros contextos, no processo oficial da Rio+20, é incapaz de propor alternativas efetivas, porque se situa nos limites impostos pela economia de mercado, isto é, pelas regras do lucro, da feroz competição e da acumulação ilimitada, que são inerentes ao sistema capitalista. Os cientistas nos preveniram: se continua o business as usual, no futuro próximo enfrentaremos desastres sem precedente na história humana. O que nos propõe o Rascunho Zero da Rio+20 é um business as usual verde, uma folha de parreira verde para tentar esconder a nudez de um sistema intrinsecamente perverso e destruidor.

Há alguns anos atrás, quando se falava dos perigos de catástrofes ecológicas, os autores se referiam ao futuro dos nossos netos ou bisnetos, a algo que estaria no futuro distante, dentro de cem anos. Agora, porém, os processos de devastação da natureza, de deterioração do meio ambiente e de mudança climática se aceleraram a tal ponto que não estamos mais discutindo um futuro a longo prazo. Estamos discutindo processos que já estão em curso. A catástrofe já começou, essa é a realidade. E realmente estamos numa corrida contra o tempo para tentar impedir, brecar, conter esse processo desastroso. Quais são os sinais que mostram o caráter cada vez mais destrutivo do processo de acumulação capitalista em escala global? O mais óbvio e perigoso é a mudança climática, um processo que resulta dos gases do efeito de estufa emitidos pela indústria, pelo agronegócio e pelo sistema de transporte das sociedades capitalistas modernas. Essa mudança, que já começou, terá como resultado não só o aumento da temperatura em todo planeta, mas a desertificação de setores inteiros de vários continentes, a elevação do nível do mar, o desaparecimento de cidades marítimas – Veneza, Asmterdã, Hong Kong, Rio de Janeiro. Uma série de catástrofes que se colocam no horizonte dentro de – não se sabe – 20, 30, 40 anos, isto é, no futuro próximo. (segue..)